"Não se controla a direção dos ventos, mas é possível redirecionar as velas"

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Fernando Salles - redacao@savarejo.com.br -

Filósofo Mario Sergio Cortella fala com exclusividade a SA Varejo sobre impactos da pandemia e como lidar com eles

 

Em meados de maio, quando conversou por telefone com SA Varejo, o professor, escritor e palestrante que despertou em milhões de brasileiros o interesse por reflexões filosóficas completava 64 dias em quarentena, interrompida por apenas quatro saídas rápidas, justamente para ir ao supermercado. Com o bom-humor e a sabedoria que o caracterizam, Mario Sergio Cortella contou que parte de sua família materna atuava com armazém de secos e molhados, mostrou intimidade com termos técnicos do setor supermercadista e, sobretudo, analisou impactos da pandemia e formas de lidar com eles.

Como o senhor entende esse “novo normal” que, dizem, surgirá após a pandemia?

É tolice achar que tudo continuará igual e que será possível seguir pensando exatamente do mesmo modo. Por ser algo global, as coisas não ficarão como eram antes da pandemia, mas nem tudo será novo.

No pós-Covid-19, há quem aposte na intensa retomada de atividades presenciais, como visitar lojas físicas, uma vez que o brasileiro gosta do contato pessoal. Faz sentido ou é um estereótipo do nosso povo?

Nós somos mais informais no modo de convívio. A origem disso é a necessidade de se dar bem em um local que está sendo construído e repleto de desigualdades, onde dar-se bem é conseguir existir. Se alguém pergunta a um desconhecido americano se ele é casado, provavelmente vai ouvir que não tem nada a ver com isso. Já aqui, duas pessoas que nunca se viram sentam-se lado a lado em um ônibus de São Paulo ao Rio de Janeiro e, chegando no Rio, uma já sabe quantos filhos a outra tem, o nome do cachorro e diversos outros detalhes. Não estaremos nesse modo com tanta velocidade. A cicatriz ainda nem se aprofundou. Temos a doença e uma crise econômica, sequer sabemos como o ano terminará. Não se trata do fim de uma guerra, em que as pessoas saem à rua comemorar.

O simples ato de sair de casa para ir ao supermercado hoje gera medo em muitas pessoas, inclusive nos funcionários em contato com clientes. Como lidar com esse medo?

Costumo dizer que a sorte segue a coragem. E coragem não é ausência de medo, mas a forma de lidar com ele. Medo não é ruim. Negativo é o pânico. As ameaças anteriores eram visíveis ou detectáveis, hoje temos uma ameaça invisível, que se aproxima sorrateira. Quando vou ao supermercado, há uma barreira entre mim e a atendente, pois cada pessoa pode ser um risco para a outra e é difícil lidarmos com isso sem que o medo nos deixe em estado de alerta. O que existe agora é tensão, mas que pode se tornar atenção.

Como pessoas e empresas podem tirar aprendizado desse momento tão complicado?

Nós somos muito habituáveis. Todo corpo tende ao repouso sem um movimento que o force ao contrário, conforme uma das leis de Newton. É possível que um dos legados seja maior velocidade nas decisões, mas ainda não há como avaliar. Estamos em meio à turbulência e vai levar alguns anos para termos um direcionamento claro sobre o modo de ação estabelecido.

O que fazer diante de um cenário tão incerto?

Na navegação há uma expressão que diz: “você não consegue controlar a direção dos ventos, mas pode reorientar as velas e seguir navegando”. Tivemos uma onda muito forte, que fez com que nos assustássemos e nos retraíssemos. Agora, há duas reações possíveis: recuar e sentar ou se movimentar e ir adiante, mesmo que mudando rotas. Quem age com estratégia e velocidade de reação chega em melhores condições na frente. Ninguém deixou de levar um chacoalhão. No meu caso, em apenas uma semana precisei adaptar toda uma agenda de palestras para o ambiente online, pensando em diversos detalhes, até na iluminação correta.

A importância dos supermercados no abastecimento da população neste período crítico mudou a relação das pessoas com os profissionais do setor?

Muitas vezes nosso contato com aqueles que nos atendem acontece na penumbra, com a mesma intensidade de quem passa pelo pedágio. O momento joga luz a quem atua nessa atividade essencial. Nos últimos 64 dias, saí de casa apenas quatro vezes, justamente para ir ao mercado. Conservo o hábito de professor de sempre saber o nome das pessoas, por isso olho o crachá de quem me atende. Lembro que na primeira saída fiz isso e também fui olhado pela atendente. Não é uma relação tranquila, qualquer pessoa hoje vive em estado de alerta. Mais adiante, porém, pode transparecer a gratidão, quem sabe com as pessoas expressando isso para atendentes, repositores, operadores de checkout e outros profissionais, dizendo a eles “que bom que você não desistiu”.

Temos visto maior colaboração entre varejistas e fornecedores e até mesmo entre concorrentes nesta crise. Esse é um caminho a ser seguido pelo setor empresarial?

Digo para as empresas: não façam concorrência predatória, autofágica. Mantenham a lucratividade sem comprometer a sustentabilidade em todas as relações. No caso de varejo e indústria, não há antagonismo nas atividades, é preciso haver cooperação. Guerra civil não tem vencedor, só sobreviventes.

Quais erros uma empresa deve evitar neste momento?

Um deles é supor que está preparada em vez de se preparar continuamente. É necessário um permanente estado de prontidão, ter capacidade de reordenamento. Mas nada justifica abandonar valores éticos. Não se pode sobreviver a qualquer custo ou fazer qualquer negócio, deixando de lado valores mais densos. O relacionamento com funcionários e clientes exige abrir a cabeça e ouvir, inclusive aquilo com o qual não concorda

“As grandes conquistas da nossa espécie se deram pela cooperação, não pela competição”

Essa é uma das reflexões que o professor Mario Sergio Cortella apresenta em seu novo livro A Diversidade: Aprendendo a Ser Humano (Editora Littera, selo da 3DEA, 128 páginas, R$ 39,90). “A frase coloca a importância de entender que a humanidade não adotou o cada um por si e Deus por todos, mas o um por todos e todos por um”, destaca o filósofo

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