Perdas no FLV: estudo mostra situação na prática

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Alessandra Morita - alessandra.morita@savarejo.com.br -

Um dos pontos mais críticos identificados em tese de dourotado sobre o tema é o compartilhamento de informações com os fornecedores, sobretudo de sell out

Se a falta de compartilhamento de dados e de um ambiente mais colaborativo atrasa os negócios e o desenvolvimento de categorias de produtos industrializados, quando se trata de itens in natura, o problema é bem maior.

É o que fica claro na tese de doutorado   defendida na Universidade de São Carlos , em maio deste ano, pela professora universitária Camila Colombo de Moraes, que estudou as perdas nos supermercados. Para isso, além da base acadêmica que sustentou análises e conclusões, ela acompanhou processos operacionais em quatro redes – três do interior paulista e um do Sul – e entrevistou profissionais de diversas áreas dessas empresas. Também foram ouvidos oito fornecedores e três ONGs. Com o título “Mitigação do desperdício de alimentos: práticas e causas na díade fornecedor-supermercado”, a tese contou com apoio* da Capes, Fapesp e CNPq. O trabalho conduzido por Camila mergulha no tema em um total de 181 páginas. Quem quiser conhecer a tese completa pode acessar o QR code ao lado.

A seguir as principais conclusões. Atenção: elas podem tirar você da zona de conforto

O índice de perdas em hortifrútis alcança de 12% a 15% – mais do que o dobro apontado pelas pesquisas existentes

INFORMAÇÕES INCONSISTENTES

  • Um dos pontos mais críticos identificados por Camila é o compartilhamento de informações com os fornecedores, sobretudo de sell out. Com isso, há muita dificuldade em prever a demanda e, assim, ter um melhor planejamento da produção. Os fornecedores, em geral, acabam se baseando apenas no que venderam de cada produto ao supermercado, sem saber o que, de fato, está sendo comprado pelo cliente final
  • Já dentro dos supermercados, uma das situações identificadas é a divergência de dados. “Numa mesma rede é comum uma área atribuir uma determinada causa a outra ou até apontar outros formatos operados pela companhia como os que puxam alguns indicadores ruins para cima”, explica Camila. Em uma das redes estudadas, por exemplo, Camila obteve um dado de que 60% dos hortifrútis que não estavam bons para venda iam para doação e 40%, para a compostagem. “Já em outro departamento da mesma empresa, a informação era de que o projeto de compostagem ainda não estava funcionando”, conta
  • A carência de uma metodologia única de cálculo de perdas dificulta comparações entre empresas. “Há redes que afirmam ter perda zero porque adotam como critério não contabilizar o que é devolvido ao fornecedor, embora tenha existido uma situação dentro da loja que inviabilizou a venda daquele produto. Além disso, há empresas que fazem a medição em volume e outras, em percentual”, exemplifica Camila

EDUCAR O CONSUMIDOR

Cabe ao varejo promover a educação dos seus clientes quanto a comportamentos como:

  • Não apertar os hortifrútis na hora da compra. “É preciso explicar a eles que isso causa perdas, pois machuca os produtos. Esse problema foi até amenizado com a pandemia. Em função do medo de se contaminar, muitas pessoas deixaram de tocar nos alimentos”, lembra Camila
  • Há produtos que estão feios, mas podem ser consumidos
  • Esclarecer que as pilhas de produtos aceleram a perda

 

Não existe uma cultura de investimentos em pesquisa e desenvolvimento de novos métodos e tecnologias para reduzir as perdas no flv em função do baixo valor e margem

COLABORAÇÃO COM FORNECEDORES

  • Segundo Camila, o varejo, muitas vezes, impõe ao fornecedor padrões muito rígidos de entrega. Hortifrútis fora das especificações estabelecidas na ficha técnica são frequentemente rejeitados, mesmo que estejam adequados para consumo. “Eles só abrem exceção quando precisam do produto. Mesmo assim, reduzem o preço de compra que havia sido estabelecido, prejudicando o produtor, que, por vezes, aceita as condições para não ter prejuízo total”, avalia a pesquisadora. Ela ressalta que situações assim não acontecem com produtos mais caros, como a carne
  • Camila também enfatiza que a rejeição de um grande número de produtos acaba encarecendo o preço ao consumidor final, pois reduz a oferta. “Para evitar isso, a devolução poderia ser mais bem coordenada na cadeia”, diz
  • Ainda na questão do relacionamento, a especialista aponta a necessidade de o varejo ajudar esse produtor, que tem menos condições econômicas do que outros, em sua capacitação. “O treinamento técnico oferecido aos funcionários do supermercado poderia ser estendido a esses fornecedores”, exemplifica. “Há desperdício em toda a cadeia, inclusive na casa do consumidor”
  • Tecnologia é outro suporte que os supermercados poderiam dar aos produtores, facilitando o acesso a equipamentos como refrigeradores para armazenagem das frutas, verduras e legumes

CULTURA DO CLIENTE E LEGISLAÇÃO

  • Hábitos do consumidor e leis existentes dificultam o combate sustentável às perdas nos supermercados. No primeiro caso, observa-se que grande parte aperta os hortifrútis no processo de escolha. Além disso, o brasileiro prefere produtos esteticamente mais bonitos. “É diferente do que acontece em outros países, em que o consumidor aceita frutas ou verduras feias desde que estejam boas para o consumo e acaba puxando iniciativas do varejo, como a criação de lojas especializadas nesse tipo de alimento”, diz Camila
  • A tática de empilhamento nas vascas, que visa dar ao consumidor a sensação de abundância, também acaba acelerando as perdas na seção de FLV. “É comum o cliente ter um sentimento de que bancas vazias representam falta de interesse do varejo no atendimento”, explica a pesquisadora. “Há casos de supermercados que deixam o morango em temperatura ambiente porque, se estiver no refrigerador, o cliente acredita que já está velho”
  • A legislação é outra barreira para a redução das perdas no varejo, como explica Camila. “O prazo de validade, por exemplo, é bastante rígido no Brasil. Nos EUA, há lojas que só vendem produtos vencidos. Já aqui, se passar um dia da data, corre-se o risco de ser preso”, afirma a pesquisadora. “As leis, de fato, atrapalham. Mas não há uma mobilização efetiva do setor no sentido de pressionar por uma mudança. Na Europa e em outros países, isso acontece, pois, também nesse ponto, é o consumidor quem puxa as mudanças no sentido de evitar desperdícios”, acrescenta

DESPERDÍCIO EM CASA

Também especialista em perdas, Eduardo Santos, CEO da EAS Soluções em Prevenção de Perdas e Logística, afirma que, muitas vezes, o problema é “empurrado para a casa do consumidor”. Para ele, o desperdício no lar é grande, principalmente de arroz e feijão. E isso, afirma, é ocasionado pela compra acima da necessidade do consumidor. “As ofertas do tipo pague 2 e leve 3 e as rebaixas de preço de item próximo ao vencimento são impulsionadoras dessa situação”, avalia o especialista. Já do lado dos supermercados, Santos alerta para o fato de que, no Brasil, a maior parte dos alimentos in natura que não são vendidos vai para o aterro. “É preciso entender que existe uma cadeia de desperdício em cascata. Em cada nível, a quantidade de alimentos perdidos vai acumulando. O primeiro nível é o desconto. Quando vai para o segundo, que é a doação, houve perda entre uma etapa e outra. O mesmo ocorre antes de o produto chegar para a alimentação animal e, depois, para a compostagem.

90% dos alimentos que não são vendidos vão para aterro sanitário

* O presente trabalho foi realizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo nº 2017/00763-5, do CNPq, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - Brasil (305819/2016-0) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), código de financiamento 001

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