Fusões e aquisições: o que vem por aí

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Fernando Salles - redacao@savarejo.com.br -

No cenário atual, redes regionais capitalizadas poderão crescer adquirindo concorrentes. Tem até regional comprando loja de gigante

No segundo trimestre, uma notícia chegou de surpresa: a compra das 4 lojas do Pão de Açúcar em Curitiba (PR) pelo Festval . Sem alarde, o acordo foi firmado em meados de fevereiro, mas o aval do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) veio só no dia 6 de junho. A rede paranaense teve razões de sobra para vislumbrar um bom negócio. “As 4 lojas estão situadas em bairros dentro do nosso perfil de público e um pouco distantes dos nossos supermercados”, destaca Carlos Beal, diretor comercial do Festval. Elas contam com área de vendas entre 1.200 m2 e 1.400 m2, ideal para um supermercado de vizinhança.

No fim de junho, as 4 unidades foram entregues pelo GPA ao Festval, que faturou R$ 1,1 bilhão em 2019. Neste momento, elas passam por reformas para receber a nova bandeira e uma série de outras repaginações. A exemplo do que acontece em todas as unidades do Festval, clientes encontrarão nas novas filiais a comodidade dos self checkouts, adegas amplas com layout atrativo e serviços como restaurante. Com as novas lojas, o Festval passará a contar com 16 filiais em Curitiba – além de cinco unidades em Cascavel. A empresa também acrescentará 700 pessoas a seu quadro de funcionários. O RH, inclusive, trabalhou para reter boa parte dos talentos que já atuavam nas filiais adquiridas.

Acordos regionais: os mais prováveis

Menos complexos, os acordos definidos regionalmente são considerados os mais prováveis nos próximos meses. Foi o que ocorreu em maio, quando o Supermercados BH comprou 14 lojas da rede Sales, também de Minas Gerais. “As regiões onde as unidades negociadas estão localizadas fazem parte da nossa estratégia de expansão”, explica Pedro Lourenço, presidente do BH, cuja receita anual é de quase R$ 7 bilhões. Ele lembra que a transação aguarda aprovação do Cade. “Ampliar nossa presença no Estado requer muita dedicação e empenho. Embora tenhamos uma marca altamente reconhecida, dar o passo adiante por meio de um negócio já estabelecido traz algumas vantagens, como maior agilidade de ampliar o share de mercado e o fato de o ponto comercial já estar estabelecido”, argumentou o presidente do BH. Para ele, novas aquisições não estão descartadas, principalmente se as oportunidades que surgirem estiverem alinhadas aos objetivos da expansão de mercado.

 

 

Visto como o mais
ativo entre os
gigantes do setor,
o Carrefour
Brasil adquiriu
30 lojas do
Makro em fevereiro
 deste ano

NO GRUPO MATEUS, ABERTURA DE CAPITAL DEVE ACELERAR EXPANSÃO

Com mais de 170 lojas e receita estimada por investidores entre R$ 9 e 10 bilhões – o que a colocaria como a quarta maior do autosserviço brasileiro – , o Grupo Mateus está em processo de se tornar a primeira rede regional e a terceira do varejo alimentar com capital aberto na Bolsa de Valores brasileira – as outras duas são as gigantes Carrefour e GPA. Informações de mercado indicam que a rede, com sede no Maranhão, pode levantar ao menos R$ 4 bilhões, sendo três quartos desse valor na oferta inicial e o restante em tranche secundária.

Arthur Machado, sócio da Ondina Investimentos , explica que a listagem em bolsa torna mais fácil o acesso ao capital, e um dos reflexos tende a ser a aceleração da expansão – em 2019 o Grupo Mateus revelou que pretende chegar a 350 unidades em um prazo de cinco anos. “Empresas familiares tendem a ser mais conservadoras. Já os acionistas têm pressa, o ritmo passa a ser outro”, destaca. Para Machado, o crescimento não precisa vir somente de aquisições, mas essa é uma forte possibilidade.

O mindset das
aquisições está
mudando, com
varejistas passando
a comprar startups.
É o caso do GPA, que
adquiriu o James,
concorrente do Rappi

REDES COM BOA GESTAO: AS MAIS ATRATIVAS

Apesar de varejistas que vão mal das pernas poderem se tornar alvos naturais de players capitalizados, empresas com boa gestão tendem a ampliar a gama de interessados. Na avaliação de Arthur Machado, sócio da Ondina Investimentos, a pandemia obrigou todas as empresas a rever processos e reestruturar negócios. “Isso mostra quem é bom gestor e quem não é”, diz. E essa diferença pode ser decisiva na atratividade de investimentos, por exemplo por fundos de private equity interessados em comprar parte da empresa, mantendo a gestão atual. “O investidor busca os melhores”, resume Arthur Machado. Apesar da dificuldade do setor, a Ondina Investimentos revela ter proximidade com 11 gestores com intenção em investir na área de consumo.

“Varejistas
sem uma
boa gestão
sequer
devem receber
 proposta”

ARTHUR MACHADO
Ondina Investimentos

OLHAR ESTRANGEIRO: PRECO ATRATIVO, CONJUNTURA NEM TANTO

Pelos parâmetros do investidor estrangeiro, o Brasil está barato. Mas isso não é garantia de investimentos de fora no varejo alimentar nacional. “Neste momento o País está malvisto em razão do cenário político inconstante e da crise de saúde”, analisa Renata Andrade, líder de M&A para fusões e aquisições Brasil da Mercer , com base nas conversas que mantém com clientes estrangeiros. Ela lembra que, até março, o cenário era de aquecimento, refletido em transações em diversos setores. A partir dali, muitas negociações foram congeladas e até mesmo canceladas.

Soma-se a isso a conhecida complexidade no varejo alimentar nacional – com enorme presença de supermercados controlados por famílias, realidades muito diferentes de uma localidade para outra, empresas regionais fortes, além de especificidades, a exemplo da complicada política de impostos. “Pode ser um negócio barato, porém difícil de operar”, resume Elton Moraes, consultor sênior da Mercer na área de varejo. Ele completa lembrando que, mesmo para quem já atua no autosserviço alimentar brasileiro, o momento é de questionamentos. Por exemplo: crescer com mais lojas físicas ou fortalecer a estratégia digital, aprimorando logística, construindo um novo CD, etc. Ainda mais com o avanço do e-commerce alimentar nos últimos meses. “O momento do mercado não se resume a simplesmente comprar o concorrente”, ressalta Elton Moraes.

GRANDES NEGÓCIOS: FORA DO RADAR NO CURTO PRAZO

Nessas condições, grandes negócios de fusão e aquisição dentro do varejo alimentar, apesar de possíveis, são pouco prováveis no curto prazo. Arthur Machado, da Ondina Investimentos, explica que o cenário econômico tem forte influência no ritmo dessas transações e, mesmo com o varejo alimentar ainda apresentando crescimento de vendas, pairam muitas incertezas sobre os impactos da crise no setor ao longo deste segundo semestre.

Redes que
se endividaram
acima da
capacidade de
geração de
caixa para abrir
lojas terão
dificuldades

RH TEM MAIOR ESPAÇO NA MESA DE NEGOCIAÇÃO

Há 16 anos lidando com fusões e aquisições, Renata Andrade, da Mercer, percebe uma participação cada vez maior do RH nas negociações. Segundo ela, investidores já levam em conta fatores como a gestão de talentos da empresa em que pretendem investir. Redes sem uma área de recursos humanos bem estruturada ou um bom trabalho de gestão de pessoas correm o risco de ser preteridas.

Durante processos de due intelligence – termo que define a busca de informações sobre uma empresa para avaliar oportunidade de negócio –, o provável comprador não pode ter acesso direto a dados como o salário dos funcionários, conforme o consultor Elton Moraes. No entanto, pode contratar uma consultoria para analisar aspectos como a folha salarial e entregar um relatório explicando, por exemplo, se os valores estão dentro da média de mercado, quanto há de passivo, entre outros. Novamente, supermercados sem um bom trabalho de gestão ficam mais distantes de receber uma boa proposta. “Há redes com gerentes ganhando R$ 10 mil e outros, na mesma função, recebendo R$ 20 mil”, exemplifica o especialista da Mercer. Essa discrepância acontece, sobretudo, quando não há um plano de cargos e salários e as premiações consideram o salário base. A rede pode até ter resultados expressivos, mas o investidor avaliará a que custo isso acontece.

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