Monja Coen: "Este é o momento da virada"

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Fernando Salles - redacao@savarejo.com.br -

Em entrevista para SA Varejo, personalidade mais conhecida do Budismo no Brasil explica como a pandemia pode influenciar um novo momento para pessoas e empresas

Fundadora da Comunidade Zen Budista Zendo Brasil, a Monja Coen Roshi é acompanhada por um enorme e diverso público com o qual divide ensinamentos e reflexões por meio de canais como livros, palestras, cursos e um perfil no Youtube seguido por mais de 1,5 milhão de inscritos. Em entrevista exclusiva a SA Varejo, ela explica como a pandemia pode influenciar o ponto de virada para pessoas e empresas, fala dos desafios de lidar com as emoções nestes tempos conturbados e aborda os benefícios de práticas como meditação e respiração consciente.

Seu novo livro fala sobre o ponto de virada. A pandemia pode ocasionar isso?

Este é o momento de dar a virada. Com tantas pressões físicas e psicológicas, ou as pessoas fazem isso ou correm o risco de entrar em um estado de brigas, depressão. Estamos diante de uma doença que ainda não tem cura e teremos que conviver por um tempo com essa grande preocupação e com uma nova forma de viver. Mesmo em situações difíceis, precisamos apreciar o que temos agora. Nada é fixo, nada é permanente.

É uma hora importante para pensar por que implico com aquela pessoa – é algum aspecto meu com o qual não lido bem? Temos de acolher as pessoas como são, nos modificar um pouco que seja. Se alguém falou de um jeito bravo com você, não tenha raiva, compreenda: estamos em meio a uma pandemia. Ela pode estar com problemas financeiros, conflitos em casa.

E nas empresas, essa virada também deve ocorrer?

O momento despertou muitas ações de solidariedade, como distribuição de cestas básicas e outras iniciativas de apoio a quem precisa. Eu gostaria que essa virada nas empresas fosse permanente. A pandemia deixou muito visíveis as diferenças sociais e é preciso uma capacidade de empatia coletiva, a consciência de agir em conjunto, com respeito à vida. Nossa condição não é fixa: quem está em situação confortável hoje pode passar por necessidades no futuro.

Isso pode ter impacto na relação com os funcionários?

As empresas devem perceber que não somos iguais, mas semelhantes. Temos necessidades diferentes, e a beleza da liderança é a capacidade de perceber a necessidade de cada um. Sabe aqueles funcionários que moram bem longe e pegam várias conduções até o trabalho? Por que não oferecer uns minutos de descanso, um café da manhã antes de começar a jornada? Uma vez fui a uma escola pública de nível básico e vi uma frase que sempre lembro: “Aqui todos têm necessidades especiais e somos todos mestiços”.

A empatia dos clientes pelos profissionais dos supermercados tende a aumentar?

É um trabalho muito bonito. Nós todos precisamos nos alimentar e conseguimos nos abastecer graças ao trabalho dessas pessoas que seguiram atuando, inclusive em contato com o público, sob risco de contágio. Devemos ter um sentimento enorme de gratidão a todos aqueles que se expõem para que outras pessoas possam ficar em casa. Temos muito o que agradecer ao pessoal dos supermercados, das farmácias, aos entregadores.

 

Em seu novo livro “Ponto de Virada: o que faz uma pessoa mudar?”,

Monja Coen mostra a importância de aproveitar momentos de dificuldade para realizar mudanças positivas

 

Sentir medo é inevitável neste momento?

Estamos assustados. Como reação, parte da população nega e outra parte fica muito preocupada. Essa divisão também causa conflitos. Mas o medo no ser humano é um protetor, pois nos torna cautelosos, e realmente é preciso ter prudência. Confiança é importante, mas desconfiança também é. O professor Mario Sergio Cortella costuma dizer que só entra num avião quando sabe que o piloto tem medo, pois assim é garantido que ele checou todos os equipamentos, verificou cada procedimento. O medo faz com que a gente se cuide, e na pandemia nossa sobrevivência depende disso.

Transtornos como ansiedade e estresse têm sido muito frequentes durante a pandemia. Como manter o equilíbrio emocional?

Ansiedade é natural da espécie humana. Como lidamos com ela é outra coisa. Hoje as pessoas estão mais sensíveis – ao primeiro incômodo na garganta, por exemplo, já se preocupam se estão contaminadas –, mas a ansiedade já estava aí, o estresse já estava aí, assim como a depressão, que é a doença do século e precisa ser tratada. O importante é pedir ajuda. Dia após dia, quer ficar o tempo todo na cama e vai trabalhar se arrastando? Busque ajuda para sair disso.

Ao longo do dia, quais práticas podem ajudar a equilibrar a mente?

No Zen Budismo trabalhamos com respiração consciente. Nos sentamos metade para a frente da cadeira, alinhamos a coluna vertebral, por onde passam todos os nervos. É algo simples: inspirar tranquilamente percebendo o ar entrando na caixa torácica e, na sequência, soltar o ar bem devagar pela boca [a Monja demonstra como fazer]. Fazendo isso duas, três vezes já é possível voltar para o agora, reestabelecer o equilíbrio. Se possível, repita a cada hora.

Faça algumas pausas mentais. Nos momentos de intervalo durante o turno de trabalho, descanse também os olhos, mirando para fora, olhe para o céu por alguns instantes. No Japão, um monge costumava mudar a posição da lata de lixo no escritório, afinal a ansiedade acontece quando estamos no automático.

Qual a importância da meditação?

Tudo aquilo que você conhece, você usa melhor. A meditação ajuda cada um a ter contato com seu eu verdadeiro, a encontrar rotas para conexão consigo mesmo. Assim como um telefone celular, em que se apertarmos com força demais na tela somos direcionados para uma função diferente da que procuramos, nossa mente é muito delicada. A prática meditativa é capaz de transformar não só o indivíduo, mas também o social, o coletivo. Cada pessoa que muda também muda os relacionamentos à sua volta. Quem estabelece um eixo de equilíbrio, mesmo quando empurrado, retorna logo para o eixo.

[Já no fim da conversa via Skype, a Monja ouve Carlitos miando na casa do repórter. Explico que ele é um gato exigente e quer mais comida em seu pote.]

Ele está certo. Precisamos manifestar nossas necessidades. Dizer que é preciso levantar um pouco após horas de trabalho sentado, reclamar caso a cadeira do caixa não seja confortável. Todos devem se apoiar mutuamente, principalmente neste momento.

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